Por: Jorge Rodríguez
Guaxinins, iguanas e caranguejos, e até mesmo o peso dos crocodilos. Por mais incrível que pareça, essas não são as pegadas mais exóticas no solo da floresta salgada da costa do Pacífico salvadorenho. Não, na verdade, essa honra cabe às botas de borracha dos pescadores locais, que procuram caranguejos na lama. “Usamos essas armadilhas para capturar caranguejos-azuis”, diz Carlos Martínez enquanto se agacha para verificar se algum foi pego.
Desde o início do século XXI, as comunidades de Barra de Santiago decidiram realizar um trabalho comunitário voluntário para restaurar o manguezal. Antes disso, lembra Martínez, o normal era o desmatamento, a expansão da agricultura e o acúmulo de sedimentos e entulhos rio acima. “Não sabíamos o significado de um manguezal degradado para nossas vidas”, diz ele. No entanto, o esforço das pessoas ajudou a reverter essa situação e, com o tempo, o desmatamento diminuiu consideravelmente, as populações de caranguejos começaram a se recuperar e as pessoas passaram a proteger espécies como papagaios, crocodilos e lagartos.
Mas a recuperação ecológica não resolveu o outro grande desafio dessas comunidades. “Os produtos do manguezal não estavam gerando os resultados econômicos que esperávamos”, diz William Recinos, outro pescador da região.
Restaurar a floresta tinha sido possível. Viver dela era outra história.
A busca por novas alternativas coincidiu com a chegada, em 2017, de vários projetos impulsionados por organizações locais e internacionais que promoviam atividades sustentáveis dentro da floresta salgada. Entre as propostas, havia uma pouco comum nos manguezais da América Central: a produção de mel. Mas, até então, ninguém na comunidade a considerava uma alternativa produtiva. “Não tínhamos nenhuma ligação com as abelhas e ninguém acreditava que fosse dar certo”, conta Recinos.
Mas, apesar das dúvidas iniciais, os pescadores aceitaram o desafio. Sete comunidades, entre elas El Mango, à qual pertencem Martínez e Recinos, participaram de um projeto-piloto de apicultura. Recinos recebeu treinamento técnico na Escola Nacional de Agricultura e 30 colmeias foram distribuídas entre as comunidades. Cada grupo recebeu cinco colmeias e o equipamento necessário para iniciar a produção. Mas a incerteza persistia. “[Após receber a capacitação] voltei sem acreditar nas abelhas”, confessa o hoje apicultor.
A desconfiança não era infundada. Durante décadas, as famílias de Barra de Santiago viveram da pesca, da agricultura de subsistência e da construção civil. As abelhas nunca fizeram parte do seu dia a dia. No entanto, os anos de trabalho restaurando o manguezal — coletando brotos de mangue-vermelho, plantando árvores e percorrendo a floresta salgada — permitiram que observassem algo que antes tinha passado despercebido.
“Percebemos que o manguezal era rico em floração”, destaca Recinos.
O projeto-piloto ganhou força com a chegada do Projeto Regional de Biodiversidade Costeira, liderado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que aumentou o número de colmeias e beneficiou 32 famílias da região. No início, o aprendizado foi técnico: como fazer a manutenção das colmeias, controlar as pragas e manuseá-las para extrair o mel.
Em 2020, já haviam conseguido duas colheitas e produzido um total de 132 litros de mel. El Mango chegou a ter mais de 80 colmeias, que produziam até 300 garrafas por temporada. Agora, as abelhas já faziam parte do cotidiano das pessoas.
Enquanto o financiamento internacional esteve presente, o modelo conseguiu se manter. Quando começou a diminuir, começaram a surgir falhas significativas. “Os insumos para a apicultura são caríssimos”, afirma Martínez. Embora a renda contribuísse para melhorar a economia familiar, os custos da produção superavam os lucros gerados.
Por volta do meio-dia, William e seus irmãos Armando, Daniel e Blanca, se preparam para ir ao apiário que possuem na região de Guayapa, uma área diferente do manguezal onde começaram a trabalhar há anos. Eles carregam caixas, verificam o equipamento e se preparam para inspecionar as colmeias.
Enquanto preparam os fumegadores, fica claro que não há roupas de proteção suficientes para todos. “O segredo é não ter medo delas, porque, senão, picam a gente”, conta Armando, enquanto estica as mangas da camisa e coloca um capacete de proteção.
O grupo El Mango precisou ampliar seu trabalho para além da floresta salgada. As condições climáticas recentes e o corte de alguns apoios técnicos os obrigaram a ajustar sua estratégia.
Eles já não caminham mais na lama, mas agora o fazem colina acima. As árvores frondosas de mangue ficam para trás e dão lugar a salgueiros, amendoeiras e outras árvores frutíferas. O sol parece mais forte do que na floresta salgada. Durante a caminhada, os irmãos Recinos contam como as fortes chuvas que caíram na região no início do ano causaram um impacto negativo em suas atividades. De 80 colmeias passaram para apenas 43.
Essa perda se soma a uma longa lista que se tornou mais evidente desde o final da década de 1990. Quando o furacão Mitch assolou a América Central, algumas regiões de El Salvador receberam o equivalente a quatro meses de chuva concentrados em um único evento climático. Os rios transbordaram e os detritos causaram o colapso da conectividade hídrica com a floresta salgada.
Então, um grupo de 36 mulheres se organizou sob o nome de Associação de Mulheres de Barra de Santiago (AMBAS) com o único objetivo de restaurar a saúde da floresta salgada. No início, conta Rosa Aguilar, uma das fundadoras, a decisão de se unir permitiu que elas se focassem em erradicar a derrubada do mangue e em legitimar o grupo por meio da criação dos atuais Planos Locais de Aproveitamento Sustentável (PLAS). “Inicialmente, eram chamados de PLES. Foi aí que a iniciativa realmente começou”, diz Recinos.
A AMBAS serviu, por assim dizer, como projeto-piloto para a implementação de mecanismos de investimento para o desenvolvimento de Barra de Santiago. Em 2006, o grupo tornou-se co-gestor do manguezal de Barra de Santiago e Metalío, anos antes mesmo de sua declaração como sítio Ramsar. “Temos um acordo de cinco anos como co-gestoras da área e agora ninguém pode tocá-la. Aspiramos que se torne um santuário”, afirma Aguilar.
Essas ações, financiadas pela União Europeia, se estenderam às sete comunidades de Barra de Santiago, incluindo El Mango. Foi então que surgiram os comitês locais, graças aos quais as comunidades tiveram acesso a recursos técnicos e financeiros para restaurar a floresta e, assim, recuperar as populações de caranguejo-azul e caranguejo-punche, duas espécies de grande importância para a subsistência da região. Inicialmente, a AMBAS conseguiu restaurar 8 hectares do manguezal e, até o momento, elevou esse número para 12.
Isso foi possível graças à participação de todos. Cada comunidade se organizou para realizar distintas tarefas, segundo sua localização geográfica. Alguns se dedicam à limpeza dos canais para evitar obstáculos e assoreamentos. Outros grupos coletam os resíduos sólidos dos rios.
“Mas, infelizmente, os projetos duram apenas cinco anos”, lamenta Recinos. Sem apoio institucional, perceberam que os comitês de desenvolvimento local não eram suficientes para proteger o manguezal. Eles se reorganizaram e criaram a associação comunitária ProBosque. “Já estamos bem estruturados”, acrescenta.
EL SALVADOR / Em imagens
Colher o mel é um trabalho em equipe. Enquanto Blanca fumega o apiário, William, Armando e Daniel verificam as caixas e recolhem os favos prontos para serem colhidos. “Depois, escolhemos a casa de um dos associados para coar e envasar o mel. Não temos uma sede fixa”, comenta Recinos.
O fim do financiamento internacional teve um impacto imediato em Barra de Santiago. Dos sete comitês comunitários, apenas o de El Mango continua ativo, embora com perdas significativas. “Éramos muitos e agora somos poucos”, lamenta Armando. O grupo passou de 15 membros para apenas cinco.
Tudo isso gerou uma reação em cadeia: tiveram de mudar o apiário para longe do manguezal, o que os obrigou a focar sua produção em outro tipo de mel, mais tradicional. Além disso, a perda de metade das colmeias provocou uma redução considerável do lucro por garrafa. De acordo com Recinos, eles investem US $12,50 para produzir uma garrafa e a vendem por apenas US $6.
As adversidades, no entanto, não são suficientes para que eles abandonem a iniciativa. Porque, como lembra Armando, eles nunca deixarão de lutar para proteger o manguezal. “O que precisamos são políticas públicas que apoiem nossas comunidades. O governo tem se focado na segurança, mas tem descuidado de outras áreas”. E os números confirmam isso. Desde 2021, o Ministério do Meio Ambiente sofreu cortes em seu orçamento por quatro anos consecutivos.
Mas eles estão decididos a continuar. Por um lado, se aventuraram a inovar com produtos relacionados ao mel: sabonetes, bálsamos e o curcumel, uma mistura de mel e cúrcuma para fins medicinais. Também criaram sua própria página no Facebook, onde publicam sobre as atividades nos apiários. Tudo isso, além de continuarem cuidando da saúde da floresta salgada.
Após examinar as colmeias — “ainda faltam algumas semanas para podermos fazer a colheita”, afirma o grupo —, eles se preparam para realizar outra atividade essencial para que tudo isso funcione: fazer a manutenção da bacia do rio. “Neste fim de semana, vamos construir uma barreira de contenção. Compramos os sacos e o combustível e utilizamos nosso próprio transporte. Vamos investir cerca de US $800 em materiais, além da mão de obra”, diz Recinos.
A resistência se baseia em algo mais do que apenas a consciência ambiental. Em 2019, solicitaram ao MARN o manejo compartilhado do manguezal de Barra de Santiago e Metalio e, embora a a gestão compartilhada continue exclusivamente sob responsabilidade de AMBAS, o pedido continua em vigor. Além disso, a associação Probosque participou de outro projeto, financiado pela União Europeia, destinado a potencializar seus processos produtivos para garantir a segurança alimentar em Barra de Santiago.
Além disso, permitiu ao grupo criar uma relação íntima com as abelhas e agora as consideram suas melhores aliadas para gerar renda e desenvolvimento para suas famílias. “Antes eu tinha muito medo delas, mas agora sei que não são agressivas. Já conheço o trabalho da rainha e das operárias. A apicultura também é uma atividade em que nós, mulheres, podemos participar”, destaca Blanca.
Enquanto guardam o equipamento, as roupas de proteção e os fumigadores, Recinos e o Grupo El Mango olham para o futuro com o desejo de recuperar as colmeias perdidas e poder voltar ao mangue para produzir esse mel tão peculiar. “Assim como as abelhas, contamos com o trabalho uns dos outros para seguir em frente. Seguimos nessa luta”, conclui.
Localização: Aldeia Las Mañanitas, Santa Rosa, Guatemala.
Iniciativa comunitária que surgiu como resultado da implementação do Projeto Regional de Biodiversidade Costeira da IUCN.
Localização: Barra de Santiago, El Salvador.
Trata-se de um projeto apícola que surgiu graças à intervenção do Estado salvadorenho e de organizações como a IUCN. O fim do financiamento institucional significou também o fim das iniciativas comunitárias. Apenas a Cooperativa El Mango se mantém vigente.
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Surge graças à capacitação técnica e ao apoio da MARFund para oferecer alternativas de desenvolvimento aos pescadores e moradores de Roatán, no Caribe hondurenho. Agora, além da pesca, os habitantes dessa comunidade recorrem à apicultura para gerar mais renda.
As mulheres de Parita trabalham voluntariamente há 26 anos para restaurar e evitar a degradação do manguezal. No início de 2026, elas começaram a produzir mel de mangue como uma alternativa de desenvolvimento e estratégia para a proteção da floresta salgada.