Historias Sin Fronteras

COSTA RICA

O manguezal de Puntarenas agradece sua restauração ecológica com mel


Resgatar o estuário foi apenas o começo. Em meio à ameaça que o vandalismo representa para o ecossistema, a comunidade de El Establo aposta no mel como alternativa econômica e também de conservação.


Por: Michelle Soto Méndez

Nas áreas úmidas do Estero de Puntarenas, onde a água doce dos rios se encontra com a salinidade do mar, um murmúrio persistente se fez ouvir no manguezal próximo à comunidade de El Establo. Não eram vozes, mas o zumbido de centenas de abelhas.

—Corram!

Os trabalhadores deixaram as pás de lado, tiraram as botas da lama e se afastaram do local com toda pressa alertando, ao passar, outros colegas que também abriam canais na lama para facilitar a entrada da maré e, com ela, a chegada das sementes de mangue.

Já em segurança, e enquanto esperavam que o enxame se acalmasse para retomar o trabalho, um dos biólogos do Sistema Nacional de Áreas de Conservação (SINAC) aproximou-se de Jesús López com uma pergunta que soava como uma proposta: “Por que vocês não aproveitam o fato de haver abelhas aqui?”

Essa pergunta, embora casual, não só deu origem à Apimangle, mas também consolidou uma linha de defesa para uma área úmida ameaçada pelo fogo e pelo abandono. Também fez os sete membros do projeto sonharem em multiplicar as colmeias, mas não será fácil; ainda precisam resolver como consolidar um modelo de negócio capaz de se sustentar sozinho, antes que o financiamento externo se esgote e a ameaça de vandalismo acabe reduzindo a cinzas sua fonte de vida.

É exatamente aí que está a essência da resistência de El Establo. A história de Apimangle é o reflexo da tenacidade daqueles que, após anos trabalhando na terra alheia, decidiram transformar seu profundo conhecimento do território em uma ferramenta de autoproteção. Para entender como um grupo de trabalhadores da cana-de-açúcar acabou se tornando guardião do ecossistema, é preciso olhar para trás, para o caminho que López e seus companheiros percorreram muito antes que o zumbido das abelhas lhes indicasse o rumo.


Fotos: Nina Cordero.

Um enxame de oportunidades

López chegou a El Establo em 1978, atraído pela safra como opção de emprego. Trabalhou para o Ingenio El Palmar até se aposentar e, já aposentado, aprendeu sobre apicultura para cofundar a Apimangle com Andrea Sánchez.

O projeto começou com 20 pessoas em 2022, mas elas foram se desvinculando até restarem sete — entre jovens adultos, mulheres e idosos —, que atualmente cuidam das colmeias, da extração e do envase do mel.

Durante a semana, todos trabalham dentro ou fora de casa. Alguns também estudam. O domingo é dedicado às abelhas, cuja jornada começa às seis da manhã. Eles entram no manguezal vestindo trajes de proteção; lá, examinam as colmeias para retirar os favos com mel, que são depositados em caixas que serão transportadas para a sala de extração, localizada a cerca de 100 metros pela estrada de terra. Na sala, trocam o traje de apicultor por luvas, máscaras e redes para o cabelo. A cera é removida do favo antes de ser colocado em uma centrífuga que facilita a extração. O favo sem mel é devolvido à caixa, pois retornará ao manguezal, e o mel é filtrado para ser envasado. Todo o processo termina por volta das três da tarde.

Desde a sua fundação em 2022, a Apimangle tem priorizado a capacitação e a profissionalização dos seus membros. A equipe concluiu cursos de capacitação em apicultura, manipulação de alimentos e primeiros socorros, além de fortalecer suas competências em associativismo, contabilidade, elaboração de planos de negócios e comercialização. Esse processo de fortalecimento contou com o apoio técnico da Fundação Corcovado (2022) e, posteriormente, da Fundação MarViva (2023-2026). Atualmente, o projeto avança rumo à obtenção do Certificado Veterinário de Operação (CVO), previsto para este ano.

Após quatro anos, a Apimangle já comercializa mel puro e misturas com pimenta, gengibre e eucalipto. Análises do Centro de Pesquisas Apícolas Tropicais da Universidade Nacional (CINAT-UNA) revelaram que esse mel contém 30% de pólen de espécies de mangue, sendo, portanto, multifloral. É tão diversificado quanto o ambiente de onde provém.

Luis Sánchez, pesquisador do CINAT-UNA, destacou que o mel do manguezal possui uma composição química única justamente devido a esse ecossistema. Ao coletar um néctar, que é naturalmente salobro, as abelhas produzem um mel com uma concentração de minerais muito mais alta do que os méis do interior do país, o que o torna notavelmente rico em micronutrientes e em compostos benéficos à saúde.

Mas a Apimangle não quer vender apenas mel. O turismo é uma das alternativas de diversificação em que a associação vem investindo. São realizadas visitas guiadas para estudantes e turistas, para que conheçam as colmeias, aprendam sobre a restauração do manguezal, os serviços ecossistêmicos e degustem o mel com a possibilidade de comprá-lo. Andrea Sánchez — cofundadora e presidente da Apimangle — é barista e idealizou um serviço de “café gourmet” que inclui degustação e confeitaria durante os tours educativos.

No entanto, para que as colmeias prosperem e o projeto possa ser ampliado, as abelhas (Apis mellifera) precisam que haja um fluxo constante da maré para que a floresta salgada floresça. Isso se aplica até 5 km, distância que marca o deslocamento máximo que os insetos realizam em busca do néctar salobro.

Exatamente a 3 km de distância fica o trecho de manguezal que López ajudou a restaurar.





Jesús López não só participou da restauração do manguezal do Estero de Puntarenas, como também é um dos fundadores do Apimangle — projeto de apicultura em manguezal — juntamente com Andrea Sánchez.
Foto: Nina Cordero

Jesús López examina cuidadosamente as colmeias para identificar os quadros com mel, enquanto Steven Calderón segura um dos quadros recém-retirados e Iraselma López faz a fumigação para manter as abelhas tranquilas durante o processo.
Foto: Nina Cordero


O renascimento do manguezal

O Humedal Estero de Puntarenas é uma área silvestre protegida no distrito de Pitahaya, onde se localiza El Establo. Com uma extensão atual de 5.241,16 hectares (o equivalente a 7.340 campos de futebol com dimensões da FIFA), 61% da sua superfície é coberta por espécies como o mangue-vermelho (Rhizophora mangle), o mangue-branco (Laguncularia racemosa), o mangue-botão (Conocarpus erectus) e o mangue-chá (Pelliciera rhizophorae), entre outras.

Durante 80 anos, esse ecossistema esteve sujeito à sedimentação, à expansão agrícola, à poluição e às queimadas, resultando em uma perda histórica de 865,7 hectares, o que representa aproximadamente 76% da cobertura original nesse setor.

Durante a elaboração do plano de manejo em 2018, o SINAC identificou a urgência de restaurar o ecossistema e, por isso, solicitou ajuda ao Centro Agronômico Tropical de Pesquisa e Ensino (CATIE) e à Conservação Internacional (CI).

Optou-se pela restauração hidrológica, o que exigia a abertura de 23,7 quilômetros de canais para restabelecer o fluxo das marés em zonas mortas. “Em outras palavras, precisávamos de muita gente trabalhando duro com a pá”, diz Jairo Quirós, coordenador do Programa Marinho da CI. Foi assim que, em 2021 e 2022, uma equipe de 20 pessoas de El Establo, liderada por López, abriu caminho para a água. “No nosso setor, abrimos mais de 400 metros mata adentro, tudo na base da pá. A tarefa de cada pessoa era escavar três metros”, conta o chefe da equipe.

Quirós admite que a experiência de trabalhar com os membros da comunidade foi enriquecedora, pois eles contribuíram com técnicas valiosas e com um profundo conhecimento empírico para controlar a entrada de água durante a escavação.

“Muitos deles trabalham em fazendas de cana, na área de irrigação”, comenta Quirós. “Foram muito úteis ao sugerir como controlar o fluxo da água. Eles criavam barreiras temporárias: abriam um canal, mas deixavam um trecho intacto para garantir que a água não se infiltrasse e bloqueasse o fluxo que vinha. Assim que terminavam aquele setor, abriam a passagem e aquela parte ficava cheia d’água. Suas sugestões foram muito oportunas”.

Poucos meses após a conclusão do trabalho, já era possível ver propágulos de mangue-branco e de mangue-botão. “Eles chegavam e se estabeleciam sozinhos”, comenta Quirós. “O manguezal é extremamente resiliente; basta lhe devolver as condições ideais para imediatamente se restabelecer”.


Fotos: Nina Cordero.

Nem tudo são flores

No domingo de 3 de maio de 2026, López voltou à área restaurada após nove meses sem visitá-la e a caminhada o confrontou com uma realidade desoladora: sobre o solo acinzentado, ainda fumegavam os vestígios negros de uma queimada intencional. “É uma pena ver como a imprudência das pessoas incendeia o que nos custou tanto para recuperar”, lamentou.

Na Costa Rica, e segundo dados do SINAC, cerca de 42% dos incêndios florestais são causados por vandalismo e queimadas intencionais, como forma de vingança contra os guardas florestais ou para distraí-los enquanto outras atividades ilícitas são realizadas.

Para Quirós, as queimadas por vandalismo são um perigo latente. Assim como outras áreas protegidas, o Humedal Estero de Puntarenas sofre com o abandono institucional devido às graves limitações de pessoal. “Se o local ainda se mantém de pé, é graças ao interesse dos líderes locais e à equipe da Ingenio El Palmar”, reconhece Quirós.

As atividades produtivas em torno do manguezal, como a produção de mel ou o turismo educativo, são formas de proteger o ecossistema: quanto mais for usado de forma sustentável e quanto maior for a presença humana, menos propício se torna para as queimadas.

“Há um enorme potencial no turismo”, destaca Quirós. “Ao contrário de outros manguezais, onde caminhar é um tormento devido à lama, aqui o acesso é extremamente fácil. Já levamos pessoas de barco quando a estrada de terra fica intransitável por causa das chuvas, e acreditamos que o aviturismo é uma alternativa econômica viável para a comunidade”.

O outro desafio está no interior da própria Apimangle. Com apenas 20 colmeias, a produção atual se limita a um microlote (cerca de 200 kg anuais) e o transporte para os centros urbanos dobra o preço final do produto.

A estratégia escolhida é competir pelo valor agregado, não pelo preço. Para isso, buscam parcerias em paradas turísticas de Puntarenas e empreendimentos ecoturísticos, como a Pousada Rural Amistad, na Ilha Chira. Mas a Apimangle corre contra o tempo. Precisa estabelecer essas parcerias antes que os fundos internacionais expirem no final de 2026.

APICULTURA


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Destino

López pede para parar o carro no meio do caminho. Ele se adentra na vegetação, na direção oposta ao rio. A cerca de 50 metros, ele se detém para apontar para uma das valas. Ele a reconhece porque esteve ali, trabalhando, há alguns anos. Agora, tudo o que se vê são árvores de mangue.

O mel, no caso de El Establo, funciona como um incentivo à conservação, já que a comunidade se preocupa com a saúde do ecossistema que sustenta sua atividade econômica. Além disso, o fato de o mel ser proveniente de uma área protegida lhe confere um valor diferenciado.

Do ponto de vista do patrimônio biocultural, o mel é o testemunho de uma tradição de coleta e produção intimamente ligada ao ambiente natural. Suas propriedades nutritivas e medicinais são conhecidas desde a época pré-colombiana, quando os chorotegas – povo indígena que habitava a Costa Rica – comercializavam o produto.

Em tempos de mudanças climáticas, os serviços ecossistêmicos de regulação prestados pelos manguezais assumem cada vez mais importância, assim como sua capacidade de fixar carbono em suas lamas, raízes, seus troncos e folhas.

É sobre tudo isso que López fala. Pronuncia a última frase e se cala. Seu olhar revela o turbilhão de pensamentos que lhe ocupa a mente. Ele sabe perfeitamente o quanto custou limpar cada metro de lama para abrir caminho para a maré. Também sabe que o manguezal lhe agradece por esse esforço com néctar, e as abelhas fazem o mesmo na forma de mel. Tem consciência da ameaça representada pelas queimadas, e isso o preocupa. Sabe que ali reside o caminho de resistência para o futuro.

Após um suspiro profundo, diz: “Sem o manguezal, estamos perdidos”.

Jesús López se prepara com o traje especial de apicultor.
Foto: Nina Cordero

Do centro da vila, caminha-se cerca de 100 metros por uma estrada de terra para chegar ao manguezal e, de lá, ao local onde se encontram as colmeias.
Foto: Nina Cordero

María Borges verifica se o fumigador está funcionando bem, antes de entrar na área das colmeias.
Foto: Nina Cordero

Iraselma López é cercada por abelhas durante a extração do mel.
Foto: Nina Cordero

Após a extração do quadro com favo, Melissa Obregón o limpa para que nenhuma abelha seja levada nele.
Foto: Nina Cordero

Após sair da centrífuga, o mel passa por um processo de coagem para filtrar restos de cera e impurezas com o objetivo de obter um produto mais limpo e pronto para o envase.
Foto: Nina Cordero

Las asociaciones

El Salvador
EL SALVADOR

Mel de manguezal: a aposta dos pescadores salvadorenhos para viver da restauração


Costa Rica
COSTA RICA

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